Guterres vive meses finais na liderança da ONU com legado sob disputa

guterres-vive-meses-finais-na-lideranca-da-onu-com-legado-sob-disputa
Guterres vive meses finais na liderança da ONU com legado sob disputa

MAYARA PAIXÃO
NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS)

Um homem que teve má sorte. Assim António Guterres, 77, o ex-premiê de Portugal que pelos últimos dez anos foi secretário-geral da ONU, tem sido descrito nestes meses finais de seu mandato.

Nos dois períodos nos quais esteve à frente das Nações Unidas, ele lidou com a pandemia de Covid, a guerra na Ucrânia, a guerra em Gaza, a guerra no Irã, a acelerada emergência climática e, nem um pouco menos importante, os governos 1 e 2 de Donald Trump, um dos maiores detratores do princípio básico da organização, o multilateralismo.

As crises em sucessão complicaram a gestão de Guterres, que se aproxima do fim, como é natural, sob opiniões dissonantes.

Seus críticos dizem que ele não teve pulso firme no que deveria ser seu papel central, a mediação de conflitos internacionais. Os admiradores afirmam que ele é um homem visionário e que fez o mais importante: manteve a ONU e suas centenas de braços operando, a despeito das dificuldades, entre elas a orçamentária.

Primeiro lusófono a assumir a chefia das Nações Unidas, ainda que o quinto europeu, ele lidera agora sua última Assembleia-Geral, que a partir da próxima terça-feira (22) reúne chefes de Estado em Nova York, a sede da ONU. Seu mandato está previsto para acabar em 31 de dezembro.

A campanha para quem irá sucedê-lo ainda é incerta, e não há uma data precisa para que o novo nome seja eleito, o que depende de um consenso dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (EUA, China, Rússia, França e Reino Unido). Há, porém, um amplo esforço para que o próximo incumbente seja uma mulher, a primeira após nove homens liderarem a organização.

Diretor de assuntos e instituições globais da consultoria internacional Crisis Group, Richard Gowan acompanha as Nações Unidas com lupa há mais de duas décadas. Ele diz que “talvez o maior legado de Guterres seja o fato de a ONU continuar em funcionamento”.

“Por motivos alheios à sua vontade, a ONU teve de reduzir a assistência humanitária e cortar operações de manutenção de paz”, afirma ele.

Ao longo dos últimos anos a instituição enfrentou uma crise orçamentária grave. A assistência foi amplamente reduzida em alguns países, mesmo que a situação social seja igualmente calamitosa, como é o caso do Sudão do Sul, onde a ajuda caiu 35% no ano passado em relação a 2024. Ou a Ucrânia, onde a redução foi de 30%; e o Haiti, de 18%.

Ainda para Gowan, Guterres possivelmente será descrito como visionário daqui a alguns anos, dado que “tentou fazer com que os membros da ONU levassem a sério o tema da inteligência artificial”. O debate sobre os prós e os contras do avanço tecnológico foi uma das principais apostas da gestão do português.

No que muitos coincidem é o principal fracasso dos dez anos do ex-premiê: a forma como lidou com as guerras.

Diplomatas ouvidos pela reportagem dizem que Guterres abdicou do papel de mediador justamente em um momento no qual o mundo vive o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O secretário-geral não tem diálogo com a Rússia –logo no início da invasão da Ucrânia, condenou Moscou. Também não tem entrada com Israel desde o início das agressões a Gaza. Chegou a ser declarado persona non grata pelo Ministério da Defesa israelense e, assim, proibido de entrar no país.

Guterres rebate as críticas. Em comentários públicos e algumas raras entrevistas, lembra que foi ele quem coordenou a iniciativa de grãos no mar Negro que, em 2022, permitiu à Ucrânia escoar sua produção agrícola em meio aos ataques russos. Também chama a atenção para o fato de que recentemente viajou ao Chipre para relançar o diálogo e tentar reativar o processo de paz e reunificação da ilha dividida.

O português foi publicamente apoiado pelo Brasil, em 2016, na eleição para o cargo –neste ano, Brasília apoiou a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet, que anunciou neste sábado (19) sua desistência na disputa. Em seu primeiro mandato, ele teve como chefe de gabinete a brasileira Maria Luiza Viotti, hoje embaixadora em Washington e uma das diplomatas com maior experiência no sistema ONU.

Viotti elogia o colega. “Num contexto de paralisia do Conselho de Segurança, [Guterres] sempre buscou a mediação e o desenvolvimento de iniciativas para fazer avançar o diálogo e a negociação diplomática”, afirma à reportagem.

“Ele colocou a ação climática no centro da agenda internacional, usando sua voz e autoridade para mobilizar governos, setor privado e sociedade civil no sentido de compromissos mais ambiciosos para a aceleração da transição energética.”

O secretário-geral verbalizou constantemente a necessidade de uma reforma no Conselho de Segurança para ampliar o número de membros permanentes, uma bandeira antiga do Brasil. Ele próprio deu início a algumas reformas na ONU, ainda que de outro cunho.

Sob seu mandato foi criado o chamado ONU80, na ocasião dos 80 anos da organização. A ideia era reorganizar alguns braços da instituição, melhorar a forma de eleger representantes e, ainda, revalorizar o multilateralismo. O processo está em construção.

Ainda não se sabe o que Guterres fará no seu período pós-ONU. Quem o conhece diz que é provável que decida aproveitar o tempo com a família: a segunda esposa, os dois filhos, o enteado e os netos. Quando premiê, sua vida foi marcada por uma tragédia pessoal. Em 1998, a primeira esposa, sua companheira de longa data, faleceu após um transplante de fígado. Guterres desde então se tornou muito próximo dos filhos.

Há, ainda que residual, uma chance de que a eleição do nome a sucedê-lo se complique. Nesse cenário, há quem imagine que Guterres poderia ser convidado a permanecer por mais alguns meses. Ele aceitaria?

Receba as notícias mais relevantes de Vale do Araguaia e região direto no seu WhatsApp. Participe da Comunidade

Mais lidas

Leia mais

Central em Pauta
Resumo sobre Privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a você a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você acha mais interessantes e úteis.

Saiba mais lendo nossa Política de Privacidade